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UM DIA NA VIDA DE UMA ROMANA - parte 1

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1 UM DIA NA VIDA DE UMA ROMANA - parte 1 em Qua 14 Maio 2014 - 15:14

Meu nome é Sílvia e habito em Roma, numa dómus no alto do monte Palatino. Fui a segunda filha de 5 irmãos, e a única moça. A minha família  de nascimento é tradicional e influente ainda que não faça parte das famílias patrícias que fundaram a Cidade.
Já a família de meu marido, que agora é a minha, é patrícia e uma das mais antigas de Roma. Por isso mesmo, eu não poderia  ter casado com Fábio de outra forma que não fosse por confarreatio, o rito  de casamento mais solene, mais antigo, indissolúvel.


Para nós, nada de coemptio ( uma nobre não pode ser comprada nem mesmo de forma apenas simbólica) e muito menos de usus que pouco mais é do que uma forma de concubinagem. Não, o nosso casamento teve direito ao sacrifício da ovelha branca sobre cuja pele nos sentámos, e foi na presença das 10 testemunhas  requeridas e do flamen dialis, sacerdote de Júpiter  e do Pontifex Maximus . Foi com a bênção deste que , quando Fábio perguntou o meu nome, eu pronunciei a fórmula sagrada: ubi tu Gaius, ibi ego Gaia – onde tu  te chamares Gaio, eu serei Gaia. Partilhámos então um pouco de água, uns grãos de sal  e um pedaço do panis farreus, feito com farinha de espelta. E as nossas vidas ficaram para sempre unidas.


Há algum tempo Tínis, a minha serva  favorita que nasceu e cresceu no Egipto, perguntou-me se meu marido e eu nos amávamos. Não gostasse eu tanto dela e não soubesse da liberdade de escolha de que tantas mulheres  dispõem na sua terra e que leva a uma importância dada aos sentimentos que eu considero exagerada, e teria pensado que ela pretendia ofender-me. Amor? Sei lá o que isso é, meus pais educaram-me suficientemente bem para que pensamentos desses não venham perturbar-me. Honramo-nos e respeitamo-nos. Para Fábio são importantes  a minha saúde e o meu bem estar, ouve-me quando preciso de falar-lhe, dá-me tudo quanto desejo, não me força a nada nem sequer a  uma maior intimidade quando a não desejo.  Para mim são também importantes a sua saúde e o seu bem estar, valorizo a sua carreira e a sua reputação, orgulho-me de pertencer à sua família e agradeço aos deuses por ter-lhe dado filhos e por ele ser um excelente pai.. Com isto, que é muito mais do que a maioria das minhas amigas tem, sou feliz. Mais do que isto, não sei o que possa ser nem sei mesmo se quereria. Não gosto de desordem nem mesmo nos afectos ou nos pensamentos.

Acordei há pouco e, lançando uma simples capa sobre  a roupa com que dormi, fui à cozinha verificar se tudo estava preparado para o ientaculum antes que Fábio chame o barbeiro e proceda à toilette para começar a receber condignamente as saudações dos clientes que já se acumulam no atrium.
Sobre a mesa de madeira na própria cozinha, já se encontram um pouco de pão untado com azeite e alho, alguns ovos quentes, mel, leite de cabra e figos secos. 






Todos nós  cá em casa comemos um pouco de tudo mas em pequena quantidade. O meu filho mais velho aparece acompanhado pelo seu perceptor, Temophilus, um grego, evidentemente, que nos custou caríssimo mas valeu a pena pois  assegurará o seu interesse pelo estudo e a qualidade dos seus conhecimentos.
Ter um perceptor não o dispensa de ir à escola pública, claro, como é dever de todo o futuro cidadão responsável  pois, por muito profundos e úteis que sejam os conhecimentos  que Termophilus lhe transmita, não pode nem deve nunca esquecer-se de que é Romano e de que são os deuses e os costumes romanos bem como a língua de seus antepassados, o Latim, que deverá sempre honrar em primeiro lugar.


Mal tenho tempo de lhe passar a mão pelos caracóis, sob o olhar reprovador de Termophilus que o acha demasiado crescido para isso, e já ambos partem para o fórum, a caminho da escola. Fábio e eu  «debicamos» um pouco  de figos com mel , trocamos algumas palavras, damos conta um ao outro dos nossos planos para hoje e ele retira-se para que o vistam e o barbeiem antes de ir distribuir a espórtula pela legião de clientes que  o acompanhará até às portas do Senado.

Eu dou rapidamente as minhas ordens para o jantar dessa noite, ainda que Josefo, o cozinheiro hebreu tão  fantástico que se julga insubstituível, acabe sempre por fazer o que muito bem entende. E eu vou fazendo de conta que não dou por nada e vou pactuando porque sei bem a sorte que temos em contar com o seu saber e arte e também sei, por experiência, quanto é perigoso indispô-lo e como a confecção dos seus habituais manjares se ressentirá do dos seus amuos.

Agora preciso de tratar da minha toilette, por fim. Não posso sujeitar-me, e à minha família, ao vexame de vir alguém visitar-me e eu não estar apresentável  como  matrona que se preze.
Chamo  as minhas servas pessoais, comandadas por Syra, uma egípcia que todas as amigas me invejam pois cuida e arranja o meu cabelo como ninguém.  Pergunto muitas vezes a mim mesma se será justo manter esta sociedade  baseada no trabalho escravo.  Os pensadores que mais aprecio, filósofos estóicos, sempre se têm mostrado adversos a este sistema e eu concordo com eles. Mas meu marido diz que Roma cairia se os escravos fossem todos libertos… De qualquer modo, nem ele nem eu conseguimos sentir qualquer afinidade ou respeito por quem maltrata os servos da sua casa que, até no próprio espírito das leis mais antigas, deveriam ser considerados familiares.  Em nossa casa são isso mesmo  e Syra  e Tínis sabem  mais de mim, dos meus sentimentos, das vitórias e perdas da minha vida, do que penso e sinto, do que as outras matronas que visito ou me visitam. È nos braços delas que por vezes choro, é com elas que rio e canto quando estou feliz.

Tenho já água perfumada preparada para  me lavar ligeiramente já que esta tarde passarei pelas termas durante as horas destinadas às mulheres e aí os processos de higiene serão mais complexos. Depois ajudam-me a   enrolar o strophium em torno dos seios, a guaina e, por cima, a túnica.  Calço as minhas sandálias e finalmente envergo  a  stola. Não vou necessitar de manto, não conto sair esta manhã.







Se eu fosse  totalmente tradicional, passaria a manhã   rodeada das minhas servas  fiando e  tecendo lã e cuidando de confeccionar o vestuário de toda a família.   Essa é considerada a tarefa mais honrada e mais nobre de uma senhora  casada e orgulhosa da honra e do prestígio da sua família. Mas eu  tenho passado os últimos tempos a cuidar disso e já todos nesta casa, incluindo os servos, têm roupa que chegue e sobeje. Por isso, hoje, será um dia inteiramente dedicado ao lazer. 



Syra prepara o meu penteado, quase uma obra de arquitectura que será motivo de conversa e inveja entre todas as minhas amigas.


Passa, de seguida à maquilhagem, que se quer refinada . Cinza, açafrão e antimónio para as pálpebras e pestanas, pasta de pétalas de rosa para as faces, suco de papoila para os lábios.


Faltam apenas as jóias. Hoje escolho um colar de âmbar e uns brincos de esmeraldas.

Vêm dizer-me que chegaram duas amigas, Sílvia e Flávia. Mando colocar uma mesinha e bancos no atrium, justo à piscina (1) e, sobre a mesa, figos, doces de pasta de amêndoa, pão doce e vinho muito aguado pois alguns maridos têm o hábito de cheirar a boca de suas mulheres quando chegam a casa para ver se desrespeitaram a lei que proíbe as mulheres de beberem álcool…

Conversaremos sobre nossos maridos, as suas carreiras, e aproveitaremos para ir sabendo coscuvilhices das famílias que têm jovens da idade dos nossos filhos, de forma a podermos saber que casamento patrocinar no futuro.
Depois iremos todas às Termas, esta tarde estão abertas às Mulheres.


(Continua)




(1) - a piscina, em Roma Antiga, não era um sítio de lazer, para nadar. Era um pequeno lago artificial onde se criavam peixes para cozinhar (daí o nome: piscis deu piscina).


_________________

Luna, minha Irmã, obrigada!
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2 Re: UM DIA NA VIDA DE UMA ROMANA - parte 1 em Qua 14 Maio 2014 - 16:42

Gostei da descrição do penteado "arquitetura" kkkkk
E essa de tomar vinho aguado e o marido cheirar a boca pra saber se a esposa "desrespeitou" as regras?....foi demais  rsrs


Mas toda a história é muito interessante, adorei Clara!


beijinhos e obrigada por nos dar a conhecer Wink


_________________
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3 Adorei! em Qua 14 Maio 2014 - 22:51

E os casamentos sem amor - ao contrário do que os ocidentais pensam - costumam resultar mais vezes do que se pensa. Obviamente que eu, vinda da Europa, seria incapaz de aceitar tal coisa, mas enfim...

O texto está muito bem escrito. Parabéns!


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Obrigada FazendeiroGeorge
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4 Re: UM DIA NA VIDA DE UMA ROMANA - parte 1 em Qui 15 Maio 2014 - 0:42

Não sou muito de ler historias, li  essa por completo! Saber realmente nunca é de mais e quando um amigo/a nos indica algo bom para se ler é pq realmente vale a pena..

Gostei de saber como é a vida de uma romana e quanto ao casamento sem amor como citou a Sandra, realmente pode dar mais certo pois por vezes o amor acaba e quem sabe ele construido seja eterno..

Obrigada Clarinha!

Bjos


_________________
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5 Re: UM DIA NA VIDA DE UMA ROMANA - parte 1 em Qui 15 Maio 2014 - 16:10

O que mais me fascina é que ao ler estas estórias relatadas pela Clara a certa altura é como se eu estivesse lá e fosse a própria Silvia, e isso é mérito de quem a conta e imagina e a isso tenho de lhe dar os parabéns, é de facto uma escritora e tanto.
 

Ela diz que não sabe o que é amor, mas amor é o que ela descreve acerca do seu casamento só ninguém ainda lho explicou; Será que quem casa por amor sabe que amor é isto:


“Amor? Sei lá o que isso é, meus pais educaram-me suficientemente bem para que pensamentos desses não venham perturbar-me. Honramo-nos e respeitamo-nos. Para Fábio são importantes  a minha saúde e o meu bem estar, ouve-me quando preciso de falar-lhe, dá-me tudo quanto desejo, não me força a nada nem sequer a  uma maior intimidade quando a não desejo.  Para mim são também importantes a sua saúde e o seu bem estar, valorizo a sua carreira e a sua reputação, orgulho-me de pertencer à sua família e agradeço aos deuses por ter-lhe dado filhos e por ele ser um excelente pai.. Com isto, que é muito mais do que a maioria das minhas amigas tem, sou feliz”


É a maior parte não sabe, porque se não não havia tanta violência doméstica, etc, etc.


_________________

Um beijo Luna
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6 Re: UM DIA NA VIDA DE UMA ROMANA - parte 1 em Qui 15 Maio 2014 - 16:28

Beatrizz_20665 escreveu: 
Ela diz que não sabe o que é amor, mas amor é o que ela descreve acerca do seu casamento só ninguém ainda lho explicou; Será que quem casa por amor sabe que amor é isto:


É a maior parte não sabe, porque se não não havia tanta violência doméstica, etc, etc.


Concordo com você  Beatriz , as definições do amor nos dias de hoje são contraditórias.
Amor de hoje parece ser algo fácil e fútil , amor de comodidade ... No tempo de nossas avós não havia violência doméstica e desrespeito . Parece que existe mais amor de momento do que qualquer outra coisa ...Se é que isso que estou falando é amor ,coisa que eu pessoalmente duvido muito .
Olha só essa leitura :




O amor nos tempos de hoje




Nada é mais revolucionário e poderoso do que o que a gente sente. Nada. Nem mesmo o que a gente pensa


Da televisão, ele sumiu, evaporou. A Internet ele nunca chegou a frequentar. Nas páginas de revista, faz tempo que não dá as caras. Foi trocado pela paixão instantânea e pelo sexo ocasional. Estou falando do amor, lembra dele? Pois é, foi escorraçado da mídia. Hoje em dia, casais se unem por desejo, oportunidade ou conveniência. Todos querem se apaixonar amanhã e somar mais um nome ao seu currículo pessoal de aventuras, que se pretende vasto. Cultivar um amor para sempre? Nem pensar. O amor deixou de ser inspirador. Já deu os versos que tinha que dar. O amor demora muito para se estabelecer e depois dura demais. Quem tem paciência e tempo, hoje, para se dedicar a uma só pessoa? O amor faz sofrer, faz chorar, e além disso não rende matéria no Segundo Caderno, não é encontrado no YouTube. O amor está obsoleto, não se usa mais. Segue valorizado apenas no cinema e nos romances de ficção, através de autores que não desistem de investigar esse sentimento que é tão difícil de se concretizar da maneira como o idealizamos. Todo amor parece impossível, tanto nos livros como na vida real. E talvez esteja aí a razão da sua força e mistério e do medo que ele nos provoca.




O amor é muito mais exigente do que a paixão: ele pressupõe a reconstrução de duas vidas a partir de uma troca de olhares, que é como tudo geralmente começa. Enquanto a paixão se esgota em si mesma e não está interessada no amanhã, o amor é ambicioso, se pretende eterno, e para pavimentar essa eternidade não mede esforços. Duas pessoas que nunca se imaginaram juntas de repente atendem a um chamado interno do coração (desculpe o termo, não encontrei outro mais moderno) e investem nessa união de olhos abertos (a paixão é vivida de olhos fechados). O amor é uma loucura disfarçada de sanidade.




Não fosse uma loucura, o amor não seria o que é: lírico e profundo, rebelde e transformador. Amar é a transgressão maior. É quando rompemos com a nossa solidão para inaugurar uma vida compartilhada e inédita. Isso é ou não é uma doideira?




Mais ainda: poderíamos dizer que o amor é um processo de autodesconhecimento. Você nunca conviveu com a pessoa que começou a amar, portanto você precisa conhecê-la, e ela a você. Diante dessa página em branco, somos obrigados a nos passar a limpo, e para isso é preciso relativizar as certezas acumuladas até então e abrir-se para a formação de uma nova identidade. Passamos a ser recicláveis. O autoconhecimento nos dá respostas seguras sobre nós mesmos, mas segurança demais pode nos paralisar. O autodesconhecimento é que nos empurra pra frente.




Todos nós já tivemos a chance de amar. Alguns, uma única vez, mas a maioria de nós teve várias oportunidades, diversos amores. Amores curtos, mas inesquecíveis. Amores que terminaram, mas que geraram filhos. Amores que naufragaram, mas que nos amadureceram. Amores duradouros, que ainda não acabaram. Todos eles nos incentivando a continuar a tentar, porque de amar ninguém desiste.




O desprestígio do amor talvez venha da pressa de viver, da urgência dos dias, da necessidade de “aproveitarmos” cada instante: é como se o amor fosse um impedimento para o prazer. Francamente, o que se aproveita, de fato, quando não se sente coisa alguma? A resposta é: coisa alguma. Do que se conclui que o amor nunca será cafona, pois nada é mais revolucionário e poderoso do que o que a gente sente. Nada. Nem mesmo o que a gente pensa.
Martha Medeiros


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7 Concordo com todos os posts. em Sex 16 Maio 2014 - 11:39

Eu também reparei que esta patrícia gosta do seu marido. Isto sim, é que é Amor, um sentimento genuíno e altruísta, que só deseja o Bem e a Felicidade a quem se ama. O texto que a Analu enviou explica muito bem a diferença entre Amor e Paixão. É uma pena que as pessoas só pensam em sexo e em ser sexys e já não se interessam em amar de verdade. Raio de mundo...


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Obrigada FazendeiroGeorge
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8 Re: UM DIA NA VIDA DE UMA ROMANA - parte 1 em Sex 16 Maio 2014 - 14:52

Olha só, Clara quando fez esta estória não imaginava que iria originar num "debate" sobre o amor...

AnaLu tudo isso é verdade e ainda bem que nos trouxe um texto tão rico de verdade sobre o que se passa hoje em relação ao amor/paixão.


O verdadeiro amor não é aquele
que se alimenta de carinho e beijos
mas sim aquele que suporta a renúncia e
consegue viver na saudade...

Autor desconhecido


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